sábado, abril 08, 2017

How to Make My Own Inkan

Os carimbos são material muito importante no Japão... À semelhança de qualquer miúdo japonês, eu sou fascinado pelos carimbos... Usam-se carimbos para tudo e mais alguma coisa... Para os visitantes ficarem com uma recordação dos locais que visitam... Para se assinarem as facturas e os recibos nas transações económicas... Para se escrever o nome num postal de aguarela alegórico da estação do ano... Até hoje tenho já uma boa coleção de carimbos... O primeiro foi um chinês em pedra gravada na figura de um Buda... Mas tenho carimbos de madeira gravados nas máquinas dos aeroportos com o meu nome em japonês... Arranjei carimbos modernos com o meu nome escrito por uma professora de japonês em katakana... Recebi dde oferta verdadeiros Hanko (carimbos utilitários) em caixinhas maravilhosas com o meu nome escrito em diferentes kanji... Tenho carimbos em pedra gravados por artistas de caligrafia Shodo... E hoje... Hoje espero ter 2 carimbos em pedra feitos por mim... Num encontro fortuito em plena Lisboa fui ensinado a preparar os materiais, a usar ferramentas  emprestadas e a preparar a minha mente para fazer o Inkan (carimbo poderoso)... Ando a pensar mudar de nome... Mas hoje vou continuar a chamar-me João...

quarta-feira, dezembro 21, 2016

domingo, dezembro 11, 2016

14ª Jornada Peregrina Oriente - 17 - O Fim da Tal Peregrinação

Mais um dia em que quando o sol amanhece... Apesar da partida do voo só estar previsto para as 11:00 eu já estou no aeroporto... Ontem no decurso de uma pequena viagem na linha de comboios Yamanote, houve uma paragem logo a termos saído duma estação com um anúncio de "Jinshin mo desu. Chotto matte kudasai" e pouco depois o comboio voltou a arrancar... Alguém mais distraído poderia pensar que o sinal da linha tinha ficado  vermelho, alguém mais dramático teria pensado que alguém se teria atirado para a linha (embora toda a Yamanote esteja elevada acima do solo também um pouco por causa disso)... Mas foi simplesmente um tremor de terra... Vim a saber mais tarde que foi de escala 5.0 em Miyako, a norte do país... Por isso viajar com alguma antecedência no Japão já me salvou de muitas coisas (greves, interrupções da circulação, alterações de horários sem aviso, tufões) e até hoje ainda não agradeci me ter salvo de outras, terramotos incluídos... O aeroporto de Haneda torna-se para mim cada vez mais o meu aeroporto preferido... Durante anos viajei para Narita, durante anos tive as minhas rotinas de partida na cidade de Narita... Costumava ficar num ryokan com onsen e com refeição de jantar incluído, com transportes de e para a estação JR local... Era a minha rotina de partida a querer prometer o regresso... Entretanto... Entretanto tudo muda... Eu mudei... O Japão mudou... Eu mudei... Esta trata-se de uma viagem diferente das últimas viagens porque não foi programada, não serviu para realizar nenhuma exposição... Foi uma viagem um pouco deixada ao acaso e para rever amigos... Alguns com espaço de semanas, outros com espaço de anos... Serviu para eu levar daqui o meu dragão azul esverdeado ou, caso prefiram, verde azulado... Esta história do dragão é algo que me vai acompanhar durante algum tempo... E esta história das cores que não são uma coisa nem são outra também me vai acompanhar nos próximos tempos... Mas é em tons vermelhos que o aeroporto de Haneda celebra a sua orientalidade... E quase de partida eu despeço-me com um travozinho daqueles que todos os estrangeiros acabam por ter no Japão com a barreira da linguagem... Procuro uma revista Kateigaho na sua versão internacional... Aprendi há muito tempo que no aeroporto é sempre mais fácil de comprar... Lá consegui comprar a edição dedicada ao ukiyo-e onde se fala das séries bijin-ga (para as cenas da vida comum), yakusha-e (para os retratos de artistas de kabuki) e meisho-e (para os relatos de viagens fabulosas)... O ukiyo-e envolve pelo menos 4 entidades: o hanmoto que pública e distribui, o eshi que desenha a arte, o horishi que grava os desenhos nas diferentes placas de madeira e o surishi que imprime as diversas placas com cor no papel... A revista desta estação do ano (só se publicam 4 revistas de acordo com à estação) apresenta ainda os vanguardistas japoneses do ukiyo-e onde me deleito com as séries de StarWars numa versão do período Edo, Lolololololol.... Deixo o Japão para trás com as notícias do êxito de bilheteira nos cinemas do filme "Your Name" do já famoso realizador de anime Makoto Shinkai, que tem produzido nos seus curtos filmes algumas das sequências mais bonitas de animação que eu já vi...  Mata ne!

sábado, dezembro 10, 2016

14ª Jornada Peregrina Oriente - 16 - No Âmago dos Toquiotitas

Sol, frio e sono... Aproxima-se o final da viagem e o dia é usado para por os últimos detalhes em ordem... Primeiro uma viagem, que acaba por me ocupar toda a manhã, em direção a Higashi-matsuyama no intuito de rever o meu sensei de gyotaku... Ele tem andado doente e este ano inclusivamente deu uma aula de "Como Fazer Tinta" o que eu acho que é revelador da sua consciência em passar testemunhos... Por isso mesmo compro-lhe um conjunto de 10 cores de tintas e recebo um diploma de mestre em gyotaku... Adicionalmente a esta honra ele presenteia-me com uns detalhes (umas colas, umas bonecas de seda e uns pedaços avulsos de seda) mas também com um livro publicado com as suas obras... A visita é curta porque estamos os 2 muito ocupados mas fica no ar a ideia de uma ida a Tanegashima em conjunto... Regresso a Tokyo e sofro um pequeno abalo: a minha livraria preferida do Japão (Kinokuniya) de 7 andares em Times Square de Shinjuku ficou reduzida a um piso... Ponto final... Estás mudanças súbitas espantam-me... Vou à loja de artes da Seikaido e venho cheio de tintas para suminagashi... E no limite compro o tal livro que me faltava e que não existia em lado nenhum... Mas quando chego ao hotel tenho a notícia de que a mala do takiyubin ainda não chegou... Eu explico que parto amanhã e eles comentam que ficaram de entregar ainda hoje... Suspiro acreditando que no Japão tudo funciona... Vou a Asakusa com intenção de ir a uma festa de música alternativa de um amigo meu... Mas caminho durante 2 horas e está um frio de rachar... Sou entrevistado na esquina do Don Quijote de Asakusa sobre problemas do sono, mas... De repente as perguntas passam muito rapidamente do "Conta carneiros para adormecer" para  mais do género "Se eu durmo nú no verão", "Se os portugueses dormem com pijama ou nús", "Se na Europa dormem mais nús do que em Portugal"... Fico a acreditar que a entrevista a ser-lhes útil vai aparecer num canal japonês de TV cabo pouco recomendável... Com a preocupação da mala, e por ainda ser muito cedo para o início da festa, regresso ao hotel sem ter visto o meu amigo... Mas na realidade sai-me um peso do ombro quando ma entregam... Arrumo finalmente malas, mochilas e sacolas... Dou uma última volta para ver as luzes liláses do Natal de Shinjuku, para apreciar os montões de folhas amarelas gigantes da gingkos que se acumulam no chão e estou pronto para a viagem de amanhã...

sexta-feira, dezembro 09, 2016

14ª Jornada Peregrina Oriente - 15 - No Âmago dos Kiotitas

Hoje acordo tão cedo que já a meia viagem de comboio vejo o nascer do sol a leste de Naruto... Será um dia de viagem em que atravesso de comboio uma boa parte do país de sul para norte... No próximo ano irá abrir em Shikoku uma nova composição toda fina e eu penso que será então a altura de eu expressar a minha vertente de tekchan, que em japonês quer dizer fã de comboios temáticos... Na primeira etapa sou abordado logo por uma japonesa que não para de falar comigo em japonês... Simpática, sem medo dos turistas porque é muito viajada (Europa, Machu Pichu e Israel) mas sem saber quase uma palavra em inglês... Este é um caso raro no Japão em que as pessoas nos abordam de surpresa mas com um à vontade natural... Existe o mesmo comportamento nos stalkers japoneses mas esta senhora que ia para um museu em Matsuyama (e não para a famosa onsen como quis frisar) não pertence a esta classe que eu categorizo como perseguidores do estrangeiro... Faço a comutação de comboios em Takematsu e recordo-me da horrorosa queda que dei aqui neste cais de embarque há alguns anos atrás... A viagem continua mais calma sem a interminável conversa da Junko-san no comboio Sealiner ao longo da paisagem sempre incrível do mar Seto... Uma outra jornada de Okayama até Kyoto... O tráfico ao pé da estação é quase impossível mas depois anda-se bem... Dou um "olá" numa pastelaria portuguesa "Castella do Paulo" que já foi uma referência em Lisboa e que neste momento é uma referência em Kyoto... O próprio dono diz que basta haver uma pequena notícia na televisão e é logo uma inundação de clientes... Provo não o Kasutera mas o pastel de nata... E um expresso... A modos que para matar saudades... Depois vou para outra zona da cidade para me encontrar com outro amigo... Entre copos de água e de vinho espanhol a conversa flui... Por fim vejo-me obrigado a apanhar um táxi e metro para na chegar muito tarde a Tokyo

quinta-feira, dezembro 08, 2016

14ª Jornada Peregrina Oriente - 14 - O Rapaz Que Ainda Percebe AlgumaCoisa de Português

Manhã que depois dos programas de ontem terem sido despachados me deixam na dúvida do que hoje ainda haverá para fazer... O meu pequeno almoço volta ser bastante japonês sendo uma das especialidades locais o renken (fruto de lotus)... A temática do lotus é controversa entre mim e a minha amiga local... Ainda hoje nos lembramos da nossa discussão de há anos... Anteontem surgiu uma matéria nova: qual a diferença entre cobra (hebi) e víbora (kusarihebi).... E ontem juntamos uma discussão nova a estas polémicas sistemáticas: a que distingue águias (washi) de falcões (taka), Lolololol... Vamos a Nori no Mura, um espaço museulogico, de concertos e cultural... A primeira paragem é na biblioteca porque me querem mostrar os livros antigos de Wenceslau de Moraes... Todos estão assinados pelos antigos donos portugueses e levam-me a crer que foram doados ou mesmo comprados pela biblioteca... Contudo o que nos prende mais aqui é a dedicação da minha amiga investigadora japonesa que acredita que existe uma ligação inequívoca entre um dos amigos de Wenceslau de Moraes e um descendente de samurai... Anda a ser transmitido na televisão NHK um drama histórico sobre essa família de samurais e ela acredita que este dado será bastante útil na divulgação da figura histórica de Wenceslau de Moraes em Tokushima, Kobe e no Japão em geral... Fica radiante porque a tradução de português para japonês é inequívoca, sem falhas ao nível de gramática e de significado... Depois vou para o museu de História (natural e antropológica) que me surpreende pela qualidade e pelas opções museulógicas... Feitas as contas Tokushima é uma das cidades mais importantes ao nível de Shikoku e por isso eu não me devia espantar por o seu museu ser de tão boa qualidade... Almoçamos caril de Peixe e vamos ver uns momiji nos templos... Por fim vamos à universidade ver o segundo polo de exposição do acervo do antigo museu de Wenceslau de Moraes... Este desaparecimento do museu continua-me a incomodar... Dizem-me que levará alguns anos, sendo que ontem inclusivamente  que, e apesar de me garantirem que os japoneses são muito despachados, poderá levar 10 anos... Tive mesmo muita sorte em me ter cruzado com Tokushima na altura certa... O reto da tarde é para descansar... Amanhã será um dia longo de viagens e de paragens, de conhecer novas pessoas e de eventualmente iniciar novos ciclos...

quarta-feira, dezembro 07, 2016

14ª Jornada Peregrina Oriente - 13- O Rapaz Que na China é Cabra e queno Japão é Macaco

Mais um dia em que os desfilar de acontecimentos não deixa um momento livre... Pequeno almoço tipicamente japonês com arroz, sopa, omelete e caril... Uma boleia para Awagami Factory, uma fábrica tradicional de papel japonês (washi) localizada perto do Yonoshinogawa... É para mim o primeiro contato em primeira mão com esta instalação... Conduzem a partir desta remota localização um negócio que se expressa na Europa... Existe oportunidade para fazer algumas folhas de papel... E estamos na altura ideal porque alguns dos componentes do papel têm as propriedades melhoradas no inverno... Eu pensava que no verão era melhor por causa da secagem... Mas é no inverno que o papel de maior qualidade pode ser produzido... O que obriga a trabalhar de mangas arregaçadas com as mais dentro da água gelada da noite... Existem algumas diferenças em relação às minhas anteriores experiências com o fabrico artesanal de papel... Uma delas é a percentagem de 70% de material indeterminado que é adicionado ao kozo (uma das principais fontes de papel japonês Washi, sendo as outras o gampi e o mitsumata)... Outra diferença é a capacidade que esta fábrica tem de criar camadas umas em cima das outras dentro da própria grade... Outra diferença prende-se com a força que é exercida nos movimentos no decurso da homogeneização da polpa dentro da grade... Faço 3 folhas de papel de tamanho cerca de A3 (nunca fiz papel desta dimensão tão grande) experimentando diferentes variáveis (concentração e número de camadas)... Vê-se uma exposição de gravura no local e gasto alguns ienes nas compras...Da parte da tarde visito Bando, uma localidade que contém duas atrações principais: o espaço reservado ao antigo campo de concentração de tropas alemãs e o primeiro dos 88 templos da peregrinação de Kukai em Shikoku... No primeiro aprendo que "campo de concentração" pode não ser tão negativo... No segundo aprendo que os henro (peregrinos) correm de um local para o outro em vez de darem início ao caminho com serenidade... Deixo uma moeda e leio em voz alta a oração escrita em hiragana junto do Buda dos macacos... À noite despacho a mala em menos de 5 minutos para Tokyo sem a certeza absoluta de a rever a tempo da minha partida... E janto com os amigos que estiveram há pouco tempo em Lisboa comigo... Mata ashita...

terça-feira, dezembro 06, 2016

14ª Jornada Peregrina Oriente - 12- O Rapaz Que Revê Amigos a Torto eDireito

Um dia totalmente preenchido com lazer e contactos com amizades... A manhã começa com uma visita a um dos dois novos espaços museulógicos que albergam a antiga coleção do Morais Kaikan... O espaço que visito fica num centro comercial e embora apreensivo pelo que poderia vir a encontrar fico na verdade muito agradado com o primeiro impacto assim que o vejo... Muita luz, uma disposição que permite a boa circulação apesar do pouco espaço disponível... Passo a manhã praticamente toda sentado na conversa sobre o passado recente dos dois lados do mundo... Almoçamos num espaço com um menu muito ocidental por cortesia dos anfitriões para comigo... E aí desenho com pincel japonês no meu diário gráfico e em folhas de papel soltas várias vezes o Wenceslau... Agora quase que sinto que já o sei desenhar de memória... Visito depois um incrível museu de marionetas japonesas... Incrível pela qualidade da exposição, pela brilhante ideia de esconder para mostrar e por ser totalmente grátis... Depois revisito o museu da cidade, mas desta vez acompanhado pela minha guia local... Fico a saber coisas que nunca me passaram pela cabeça no decurso da primeira visita... Com algum tempo ainda vistamos o fabuloso Jardim do castelo de Tokushima, o qual me deixa na memória uma combinação perfeita de elementos estéticos e de pontes naturais de pedra num espaço que seria considerado minúsculo para muitos... Pouco depois já estou a ser chamado ao lobby do hotel para amais uma sessão de aula portuguesa na universidade local... É a minha segunda vez que assisto a esta aula e comento que devo ter que começar a pagar proprinas, eheheheh... Revejo na aula algumas caras conhecidas... Para surpresa de ambos, revejo uma cara eu tinha acompanhado recentemente em Sintra... Depois de acabarmos a aula a cantar Amália Rodrigues, jantamos num restaurante perto... A conversa continua pela noite dentro e de repente passou o dia num ápice...

segunda-feira, dezembro 05, 2016

14ª Jornada Peregrina Oriente - 11 - O Meu Japão é Bonito mesmo quandoos Comboios se Atrasam

Acordo dorido porque ontem mesmo no final do dia dei uma outra pequena queda no piso escorregadio... Nada de especial mas a chuva nos degraus das escadas é algo que me continua a perseguir no Japão... O dia nasce carregado de nevoeiro por causa da chuva de ontem que com o calor da manhã se eleva no céu... E pouco depois rasga-se o sol revelando um céu de azuis Miyazaki, como eu gosto de lhes chamar... Os azuis dos céus dos desenhos animados japoneses... Sem pressas despeço-me da zona comercial de Okayama, da estátua junto à estação JR do Momotaro com os seus três amigos (cão, faisão e macaco) envolta numa abóbora das cores LED de Natal, do rio Asahi que penso estar na origem do nome da marca de cerveja (ou talvez não?)... Gostei muito de estar em Okayama mesmo com a chuva interminável de ontem... A partida de Okayama faz-se com ligeiro atraso de meia hora... Ligeiro? No Japão isto é impensável e desorganiza que tem ligações de comboio para fazer... Que é o meu caso... Mas como não estou minimamente preocupado hoje com as horas, também não stresso... Hoje só quero chegar a Tokushima e ainda por cima não tenho programa nenhum concretamente para fazer... A travessia da maior ponte suspensa do Japão Setō-Oashi, e provavelmente uma das maiores do mundo, faz-se através do Mar Interior considerado, muito por via da suas centenas de pequenas ilhas, uma das mais bonitas vistas no País do Sol Nascente... Em Takematsu, cidade famosa por um dos tais 3 jardins mais bonitos do Japão (nunca sei se só há mesmo três jardins mais bonitos, eheheheheheh), tenho um compasso de espera por causa dos atrasos nos comboios... Chego nas calmas a Tokushima, tão nas calmas que a equipa da limpeza me têm que avisar que a viagem já acabou, eheheheheh... Largo a mala e zarpo para Bizan, a magnífica montanha verdinha de que Wenceslau de Morais tanto gostava mas que desta vez está ainda colorida com os restos do outono... Paro primeiro no cemitério para estar com Wenceslau, Ko-Haru e O-Yone... Junto das suas três pedras tumulares faço os rituais sozinho... Por incrível que pareça nunca consegui aqui estar sozinho... Em Tokushima estou sempre acompanhado... E por isso retraço os meus passos pela montanha fora e vou junto da estátua de Wenceslau sem me enganar... Também sem escorregar nos musgos, eheheheh... O meu carvalho ainda não morreu de todo, está maior mas provavelmente por causa do clima está com mau aspeto... E a estátua de Wenceslau é agora a sua única presença em Bizan, na medida em que no lugar do museu existe agora uma cratera como resultado da demolição daquela estrutura... Saudade daquele espaço... Quando desço vejo um japonês a parar e a olhar para mim... Trata-se nem mais nem menos do que o presidente da associação local, que os deuses fizeram com que cruzássemos ao acaso os nossos caminhos... Não sei se é a benção de Wenceslau mas na realidade mal chego não consigo estar sozinho em Tokushima por mais de duas horas seguidas, eheheheheh... E no hotel recebo uma visita, e vejo-me quase na obrigação de alterar todos os meus planos, e antes do final do dia tenho já pouco tempo livre... É bom regressar a Tokushima!

domingo, dezembro 04, 2016

14ª Jornada Peregrina Oriente - 10 - O Meu Japão é Bonito mesmo quandoChove a Cântaros

Amanhece sem chuva e eu preparo-me para a partida de Matsue em direção a Okayama... A viagem demora cerca de duas horas e meia, o que nas minhas contas quer mais ou menos dizer que o país neste sítio só é largo uns 250 quilómetros... Chego a Okayama e no posto de turismo são tão simpáticos que quando eu pergunto sobre a história do Momotaro, um famoso personagem do género rapaz-pêssego que é o herói de uma história infantil meio mítica com animais e batalhas fantásticas, me dão uns livros de histórias para crianças... Uau... Sei que não tenho cara de puto... Mas pela minha expressão arranco um sorriso da jovem japonesa que me está a atender... Com umas pingas a ameaçar chuva deixo a mala no hotel... A minha escolha de hotéis está viagem é de extremos absolutos... O hotel que fica junto ao canal de um rio que atravessa a cidade é mais um daqueles albergues com uma fileira interminável de sapatos à porta... Começa entretanto a chover... Eu vou ao castelo, onde perco o teatro mas onde almoço uma mistura de udon com uma espécie de sushi de enguia grelhada... Ensinam-me quais as pimentas e especiarias para cada coisa e eu uso e abuso... Hummmm... Ao sair ainda traga-o o paladar na boca... Chove cada vez mais... Mas eu mantenho o meu programa de ir visitar o Kurakoen, considerado um dos três melhores jardins do país... Abrigo-me num miradouro de madeira em cima do monte e começo a ficar por ali... Os turistas - chineseses, coreanos e alguns japoneses - vão e vêm mas eu continuo ali sentado a olhar para as manchas dos guarda-chuvas que, seguindo os seus donos, também vão e vêm... De repente sinto-me zen... E no meio da carga de água que cai à minha volta recordo os preceitos aprendidos em Tokyo para se fazer um bom zazen, a técnica e a postura para se atingir o tal do nirvana... Faz frio, à luz diminui, os charcos de água aumentam... Saio do Jardim e dirigi-mo para uma arcada comercial bastante extensa... Em sistema de lojas em arcada é bastante comum no Japão... Por um lado protege do Sol e da chuva, por outro lado é uma espécie de centro comercial com as lojas que sempre procuramos, tipo farmácia, loja dos 100 ienes, por aí fora... Contudo esta arcada é um pico diferente nas suas lojas porque... Tem requinte... É mesmo isso, tem mais requinte que as comuns arcadas no resto do país... Chego finalmente ao hotel e percebo que estou num misto de hotel cápsula nuns andares, quartos japoneses noutros andares e quartos normais nos restantes... É a primeira vez que estou num sítio assim mas até que o quarto embora simples é bastante adequado... Dá-me ideia que os antigos banhos públicos do pós-Guerra foram evoluindo para os sarariman que não têm tempo de comutar no final do dia até casa pudessem ter onde ficar mas mantendo ao mesmo tempo a funcionalidade de onsen... Saio para jantar sashimi... E dou umas voltas bem grandes por Okayama à noite porque existem algumas iluminações de Natal e porque quase que parou de chover...

sábado, dezembro 03, 2016

14ª Jornada Peregrina Oriente - 09 - O Meu Japão é feito de Mitos eFoclore

Bom dia Japão! A manhã está fria de rachar, muito perto dos zero graus... Acordo indeciso quanto ao que fazer... Tenho três programas bem diferentes... O primeiro programa é ir assistir a um festival de barcos numa aldeia piscatória não muito longe daqui mas um pouco inacessível a quem se desloca de transportes públicos... O segundo programa é ir a uma ilha no meio do lago Shinji onde existe um jardim botânico que se vai iluminar com luzes de Natal à noite... O terceiro programa é dar uma volta por Sakaiminato e no regresso dar umas voltas por Matsue... Quando dou por mim decidi-me porque estou a caminho de Yonago para apanhar o comboio dos monstros yokai... Trata-se do programa menos interessante mas é para lá que os meus pés me conduzem... De qualquer modo eu quando sai de Osaka mais cedo ganhei um dia por aqui e por isso estou perfeitamente dentro da minha agenda original... O museu de Mizuki Shigeru mudou um pouco após a morte dele no ano passado... Mas, mesmo apesar do respeito que merece este desenhador de manga de um só braço (literalmente porque perdeu um braço na XX Guerra Mundial), o audioguia grátis continua a saber a um pouco de elogios a mais... Em terras de pescadores almoço atum fresco com arroz... Não me canso de comer um gelado de matcha... Acabo por dar voltas e voltas à procura do postal #40 que está esgotado nas lojas... Eu sei que tenho uns 6 postais lá em casa comprados para aí há uns 6 anos, e que se calhar o #40 é um deles, mas sabe-me a derrota não conseguir comprar a coleção completa... A amplitude térmica com o céu azul é brutal atingindo quase os 20° C... Regresso a Matsue determinado a procurar uma coleção de livros... E volto a receber a notícia de que não há livros dessa coleção... É um pouco estranho porque ainda na primavera havia um novo lançamento e tudo... De repente, é quase como se a coleção tivesse desaparecido até das livrarias... Todavia mesmo estes "fracassos" são bons... Hoje é o dia da derrota do consumismo o que agrada à minha carteira... O plano para o resto do dia é ir despachar a mala pelo que terei que a arrastar por meia cidade e  amanhã há previsão de chuva...

sexta-feira, dezembro 02, 2016

14ª Jornada Peregrina Oriente - 08 - O Meu Japão é feito de VerdePrateado

Começa oficialmente a minha segunda semana de viagem... Ontem preparei-me para estes 2 a 3 dias em Matsue... A minha primeira prioridade é ir até Iwami Ginzan que faz 10 anos que foi elevada a património mundial pela Unesco... Parto bastante cedo e as ligações dos transportes são muito eficazes pelo que conto chegar às montanhas no início da manhã... A ligação por comboio "Sea Liner" faz-se junto ao mar com algumas paisagens de costa de cortar a respiração, onde o comboio atravessa pequenas pontes com o mar lá embaixo ou quando a visão se rasga para minúsculas baias com rochas pontiagudas... Deram-me um papel com o mapa em inglês enquanto esperava pelo autocarro e por isso apesar de me deixarem no meio de uma paragem qualquer eu oriento-me montanha acima por um trilho junto ao rio... Saem-me garças assustadas do rio... Apesar dos avisos não me saem nenhumas cobras verdinhas pelos caminhos... É assim que eu gosto do meu Japão, verdinho com reflexos prateados... Mas prefiro que seja de outros verdes e pratas... Seja pela água espalhada no meio dos campos de arroz, seja pela água pontilhada de luz pelos rios que descem por entre as florestas de musgo e cedros japoneses... No meio das fotos sou ultrapassado por um monge e mais tarde vejo que ele espera por mim mais acima... Não  deve haver muitos turistas estrangeiros e muito menos a estas horas da manhã... Mete conversa comigo e pergunta-me de estou sem guia... Ao responder que não, ri-se de admiração e pergunta se eu quero que ele faça de meu guia no resto do percurso... É então que fico a saber que há cerca de 400 anos viviam aqui mais de 10.000 pessoas, com uma esperança de vida de cerca de trinta anos por causa dos venenos da mina de prata... Na realidade Iwami Ginzan foi uma importante mina de prata até se esgotar o filão... E quando o meu guia me pergunta de onde eu sou ri-se porque os portugueses foram os impulsionadores desta mina... O monge budista diz também que por aqui houve muitos "cristãos escondidos"... E acha piada ao eu confirmar que sou católico desde bébé quando me batizaram e que este procedimento é normal em Portugal... Despedimo-nos e vou para uma das galerias visitáveis da mina de prata... Tudo muito bem cuidado e fartam-se-me de dizer para eu baixar a cabeça, com alguma insistência porque sou mais alto que o japonês comum, lololololol... Quando saio, passo pelo tasco budista do meu guia e almoço aí... Mais uma vez trata-se de uma refeição vegetariana, numa espécie de sushi de soba... O dia está bonito mas frio e trazem-me para o pé de mim o braseiro (uma espécie de aquário asiático mas desta vez sem água nem peixes koi)... Na despedida trocamos os nomes e contatos e saio cheio de alegria por este encontro ocasional... Desço lentamente a Montanha pelo meia da rua principal da vila... A água corre sempre pelos lados da rua... E hoje deve ser feriado local porque quase tudo está fechado... Dai talvez haver poucos turistas... Regresso a Matsue com intenção de ver o famoso por de sol no lago Shinji... E hoje, mesmo com este frio todo, o dia está tão bonito que merece um por de sol brutal... E, inevitavelmente, merece também uma rotina de lavagem de roupa...

quinta-feira, dezembro 01, 2016

14ª Jornada Peregrina Oriente - 07 - A Câmara dos Horrores

Primeira noite que durmo sossegado sem jet-lag... Uma forma de eu acertar com os horários é através do cansaço exercido logo nos primeiros dias com programas mais complexos... Apanho o comboio bem cedo porque sei que a viagem até Osaka vai demorar mais de 4 horas... Por um lado é a distância entre Shingu e Osaka... Por outro lado é a lentidão do comboio expresso que para todos os efeitos não é um Shinkansen... E por fim porque o caminho ao longo da península é sinuoso numa rota que percorre toda a costa com as suas baias e enseadas... Pensarão os caros leitores que se trata de uma viagem idílica? Hummmm... Talvez... Para os mais desatentos comento que uma das estações de comboio é a da infâme cidade de Taiji, sítio que me fez um dia odiar o Japão e ao qual eu jurei nunca por lá os pés... Taiji é um dos poucos sítios do planeta onde os humanos cercam golfinhos e outros cetáceos em baias secretas para um um destino angustiante... Taiji é a cidade onde numa praia escondida da vista de todos matam um a um os golfinhos à pancada num agoniante banho de sangue... Há uns anos um documentário sobre esta cidade chamado "The Cove" foi filmado às escondidas da população e recorrendo a tecnologia de espionagem sofisticada obteve imagens de puro horror, tendo acabado por ganhar o Óscar em Hollywood nesse ano... A decoração da modesta estação de comboios é um mural toscamente pintado com golfinhos e baleias... Inacreditável... Tentam passar a mensagem de que é aqui que treinam golfinhos para os delfinários... Mas não se enganem... É em Taiji  que nos servem ao almoço dentro do prato carne de golfinho, por sinal carregada de metais pesados tal como o mercúrio... Para os mais atentos... A apreciação da incrível paisagem perde muito com a presença constante das instruções de emergência em caso de tsunami que nos espreita no comboio a toda a hora nas costas do banco da frente... Paisagem magnífica sim porque foi rasgada vezes sem conta por tufões e tsunamis do grande oceano Pacífico que nos banha aqui a oeste de meio mundo de água... Chego a Osaka e preparo-me para passar aqui a noite... Ontem tentei reservar estadia em Matsue mas sem sucesso e por isso Osaka pareceu-me um bom sítio... Só que mal chego e apanho wi-fi recebo um e-mail a dizer que afinal sempre têm reserva... Fico um pouco na dúvida mas volto a partir... Parto sem ter ido provar as especialidades japonesas em alguns restaurantes icónicos de Dotonbori: o yakitori do Otakoya, ramen no Kinryu, kaiseki no Kani Doraku e fugu no Zuboraya... Será portanto um dia inteiro de viagens de comboio com sandes e uma caixa bento, portanto quase a pão e água... Parto de uma paisagem urbana que se transforma à medida que atravesso o meio do Japão para chegar ao lado oeste da ilha... Onde chego já noite cerrada, felizmente sem chuva, embora um pouco longínqua acertando à primeira na localização da estalagem... Que me deixa sem toalha porque eu não trouxe, Lolololol... O dono lá me emprestou uma para o resto dos dias... Nice, not friendly... Hummmm... Um dia cheio de horrores... Hummmm...

quarta-feira, novembro 30, 2016

14ª Jornada Peregrina Oriente - 06 - A Arte de Subir Degraus e deDescer Expectativas

Para meu pesar não fui visitado por nenhum yokai nesta noite... Fria, com ruídos da casa a estalar por todo o lado, mas sem aparições... Levanto-me bem cedo neste último dia de sol programado pela meteorologia local... Deixo a chave em cima da mesa e encosto a porta (sem fechadura) de acordo com as instruções do minshuko, tal é o nível de segurança no Japão e em especial nestas zonas mais rurais... Despeço-me do torii que assinala o antigo local de templo de Hongu Taisha, sendo que o templo original foi levado por um tufão há já muitos anos, tendo sido transferido para o novo sítio... Recordo que esta Meca da Peregrinação no Japão acaba inclusive de se aliar aos Caminhos de Santiago de Compostela...É ainda tao cedo que assisto ao programa diário de ginástica (raijio taisou) do quartel dos bombeiros que está ali mesmo ao lado... Apanho o autocarro para Shingu, uma cidade costeira que também pertence à rota dos peregrinos de Kumano-Kodo... Aliás, se eu tivesse seguido a tradição seria suposto ter saído de barco pelo rio Kumano-gawa até à foz em Shingu... Mas nem há água suficiente e nem há barcos em Hongu Taisha... Aliás fico a perceber que quase ninguém fica em Hongu Taisha... Vai quase toda a gente para as onsen e ryokans mais a sul... E mais à frente, quando o rio ganha força, há então a opção de viajar de barco... Porém eu sigo de autocarro, deixo a mochila no hotel e parto numa correria de horários e de transportes para Nachi... Nachi-San - adoro sempre esta forma majestosa dos japoneses chamarem os montes sagrados como se de pessoas se tratassem - é um dos outros três principais destinos de Kumano-Kodo... Aqui sigo pela primeira um troco do trilho antigo numa subida de meia hora de cortar o fôlego...  Abasteço-me de mikans, uma variedade de tangerina japonesa, numa daquelas habituais bancas de venda sem que ninguém esteja lá... Isto só funciona no Japão, onde a mercadoria e os dinheiros das vendas estão expostos, pega-se na fruta, deixa-se o dinheiro, e o negócio fica feito sem ninguém a assistir... Cruzo-me nesta subida com duas peregrinas vestidas como antigamente e fico aí mesmo sem fôlego pela elegância e exotismo das roupagens... A chegada à zona sagrada é quase imperceptível para os desprevenidos, mas ontem já me tinham avisado... Trata-se de uma capela shintoista quando se vira à esquerda (não dá para enganar por causa do torii) e trata-se de um templo budista quando se vira à direita (não dá para enganar por causa do portão)... Penso que se trata de um caso raro mesmo no Japão, que demonstra sempre uma boa convivência entre religiões... Outro pormenor que recordo nesta mistura de religiões e de credos é que os infantários católicos, normalmente localizados ao lado das igrejas, são sempre muito requisitados pelos japoneses em geral... Carimbo no lado shintoista o meu livro de carimbos da peregrinação que eu comprei ontem... Visito o pagode do lado de fora... Desço até à cascata de água, considerada a maior do país... As condições de observação são perfeitas, mas cobra-se 300 ienes para ir um bocadinho mais perto...  Os próprios japoneses são os primeiros a rirem-se desta situação caricata... Regresso a Shingu, mais uma vez de autocarro porque os comboios aqui só passam de vez em quando... Desço a meio caminho para ver o ultimo templo Hayatama Tasha de Shingu... Finalmente consigo almoçar/lanchar/jantar pelas 18:00... Uma última incursão pelas compras nas cidades de subúrbio onde chego a pensar de que algo está errado porque nada tem preço... Não tinha reparado que estava mesmo no meio de uma grande superfície dos "100 ienes" e por isso não é preciso colocar preço em nada... Reservo o comboio para amanhã... Passam tão poucos que achei melhor precaver, lololol... E fecho assim a minha incursão pelos trilhos de Kumano-Kodo...

terça-feira, novembro 29, 2016

14ª Jornada Peregrina Oriente - 05 - A Arte de Bem Estar a Olhar para aMontanha

Finalmente acordo depois de uma noite de 5 horas de sono, hurrrahhhh!!! O sol desponta por entre as nuvens... Tomo um brutal pequeno almoço ocidental num sítio com ar já decadente... Aliás aqui em Kii-Tanabe é um pouco hábito está cena da decadência com brutal sofisticação... Ainda ontem quando cheguei ao quarto do Hotel não queria acreditar por contraste com o lobby da recepção... Portanto lição a tirar nestas paragens: não nos guiarmos pelas aparências... Um pouco de frieza no calor do posto de turismo mas nada de mais... Uma viagem de autocarro naquilo que poderia ter sido uma viagem a pé... O tempo não está estável nestes dias... Ontem cheguei muito tarde... E o arranjar desculpas para não palmilhar uns 40 quilómetros em 2 dias... Mas quando entro no autocarro perguntam de onde eu sou... Quando respondo perguntam-me para onde eu vou... Quando respondo perguntam-me se vou rezar... E aqui fiquei sem palavras, abri e fechei a boca, balbuciei um "sim"... Mas não tinha realmente pensado naquela pergunta até a velhinha senhora me encosta à parede... O que venho fazer aqui? A viagem de autocarro decorre, com a largada de peregrinos japoneses em sítios estratégicos... Embora o ponto de chegada seja sempre um de três templos dado o carácter labiríntico do percurso nem todos os peregrinos iniciam o trilho no mesmo sítio... Na realidade este atributo de Património da Humanidade foi atribuído ao Kimano Saizan porque alguns dos trilhos ainda persistem no interior das montanhas, enquanto que na orla costeira a maior parte já desapareceu... Tecnicamente a viagem teria que começar e acabar em Kyoto, com ponto de passagem em Osaka, percorrendo a península de Koya a Ise, de Hongo a Nachi... Quando chego a Hongo Taisha... Há uma energia especial no ar, sem o ar sisudo de Ise ou o ar profissional de Izumo... Conhecendo-se já os outros sítios pode-se entender perfeitamente aquilo que aqui expresso... Sou atendido no posto de turismo de uma forma totalmente simpática, cuidada, informativa, auxiliar... No final ofertam-me uma pasta para poder arrumar cuidadosamente as inúmeras folhas de panfletos que me acabam de entregar... Vou para o minshuku designado e aí tenho uma real surpresa com a hospitalidade e calor humano que me fazem... Como eu costumo repetir algo que ouvi dizer: há simpatia e há amizade, são parecidas mas não são a mesma coisa... Geram-se sinergias inacreditáveis enquanto me mostram a propriedade... Leram bem... Aluguei um quarto e entregam à minha discrição uma moradia inteira só para mim lá no cimo a meio caminho da montanha... Sinto fome e vou ao café que gere também o minshuku... Não fico muito espantado por a refeição ser totalmente vegetariana... Vegan, mesmo... E deliciosamente com um sabor exótico ainda no palato vou visitar o torii e o templo de Hongo Taisha... O dia está incrível com o céu azul e as cores do outono... Nem me chateio muito com os turistas chineses... E injectar a minha dose diária de macha na sua forma mais deliciosa, a de gelado em cone... O minshuku marcou-me jantar para as 6 da tarde e por isso não tenho muito tempo a perder porque ainda por cima tenho que ir aos banhos japoneses... O jantar é mais uma vez vegetariano e so acaba lá pelas 10 da noite porque... Porque deixou de haver clientes e porque a conversa atingiu uma sintonia de que poucos rádios se podem gabar... Conversa que decorre entre arte nas suas mais diversas técnicas e artistas, o duelo surdo entre a religião Shinto e o budismo, a aristocracia de Kyoto para o resto do país, epifanias comentadas nas casas assombradas, experiências com yuureis no Yellowstone, a gestão esgrimada entre a gastronomia e a hospedagem, dragões asiáticos voadores mas que só voam para cima, a visão por via das cores que se misturam, a localização dos lados secretos das montanhas e o anúncio das galerias que se medem com 7 palmos dos meus... Sinto de alguma forma... Sinto que se eu fosse japonês poderia dizer de alguma forma "ie ni kaeru"... E direi... E depois de ter dito terei um mês para resolver o assunto... Porque no final percebi que eu não vim cá para rezar mas para algo que é algo ainda mais misterioso... Hummmm...

segunda-feira, novembro 28, 2016

14ª Jornada Peregrina Oriente - 04 - A Arte de Bem Fazer Quilómetros aFio


Continua o jet-lag... Antigamente não dormir na viagem de avião resultava muito bem... Mas ultimamente parece que este simples truque já não result tão vem... A chuva da lugar ao sol mas este traz com ele o vento frio... Faço o takiyubin numa loja de conveniência porque o hotel de partida não aceita pagamentos e não estou a ver o hotel de chegada a pagar a conta... Mas são estes imprevistos que me têm alargado os horizontes em muitas coisas...  E o takiyubin é uma das invenções japonesas mesmo útil para viajar sem bagagens... Tomo o pequeno almoço ainda em Ueno num espaço onde eu vinha há cerca de 10 anos... Com os anos o espaço, antes a abarrotar de gente, está quase vazio e nota-se um certo ar de decadência... Mas o pequeno almoço continua a ser óptimo!  Sem nada para fazer da parte da manhã, sigo uma sugestão que me foi dada ontem para ir ver uma ichou namiki (alameda de gingkos) muito famosa em Jingu Gaen... Mas o outono ainda não está todo desenvolvido e há muitas gingkos ainda verdes... De qualquer forma conheço assim com esta visita mais uma zona diferente de Tokyo... Sobram ainda algumas horas e sendo assim aproveito a proximidade para ir a Akihabara, que nos dias de hoje se torna cada vez mais a Meca do Otaku dedicado... As lojas só abrem muito tarde... Hummm... O negócio deve estar a correr bem... Vejo-me a percorrer quase sempre as mesmas lojas mas consigo resistir à tentação das compras de toys e dos convites para os maiden café... Finalmente apanho o Shinkansen... Tenho por costume chegar com bastante antecedência e desta vez não foi excepção... Ao ponto de registar todos os momentos da equipa de manutenção do meu comboio... A espera no acesso do piso inferior ao cais, a marcha em fila para as escadas rolantes sem que não se soltem uns "ufs" entredentes para marcar o ritmo, da abertura de portas para a entrada das equipas, do virar dos bancos porque os comboios ainda não sabem dar a volta, a distribuição das toalhas das cabeças, o arrumo das mesmas, uma mão que varre as migalhas e uma mão que desengordura as superfícies e da brilho ao aos vidros, uma varredela do chão apressada e... Em pouco mais de 10 minutos está tudo pronto a receber os passageiros... Uma pequena paragem em Shizuoka para cumprimentar um meu amigo pintor... Conversas à volta de um vulcão Fuji a fumegar vapor de cozedura das gyozas, já que o verdadeiro vulcão Fuji-San estava (mais uma vez) encoberto pelas nuvens... Fala-se dos planos de Junho e de Agosto de 2018, um ano que vai ser muito importante para muita gente (eu, artistas amigos, cidadãos comuns de ilhas distantes, sociedade de amizade luso-nipónica e por aí fora)... Fala-se também de novos desafios (sociais e artísticos) e da forma como os japoneses de repente começaram a olhar para Portugal... Já tinha a percepção que os media japoneses começaram de repente a publicar e a emitir reportagens a torto e direito sobre o nosso cantinho português... No meu comentário o sentimento da perda do "segredo bem guardado" não deve melindrar ninguém, pelo contrário... Estes encontros espaçados no tempo parecem contudo ser retomados onde a conversa anterior acabou, como que se na realidade não tivesse havido um intervalo tão grande... Pela noite dentro, apanho mais 2 comboios para chegar por fim (ainda antes da meia noite, ufa!) à cidade de Kii-Tanabe, que será o meu ponto de partida conforme o planeado para a aventura dos próximos dias...

domingo, novembro 27, 2016

14ª Jornada Peregrina Oriente - 03 - A Arte de Fazer Bons Amigos MesmoCom os Pés Descalços


Jet-lag a partir das 01:30... Nada de novo portanto... Levanto-me quando o dia abre...  Abre com ameaça de chuva no horizonte... Faço questão de que o meu pequeno almoço inclua um macha latte... Faço as reservas das viagens de Shinkansen todas que terei que fazer amanhã... Fico livre até às 14:00 para fazer o que mar der na telha... Já que estou em Ueno decido ficar de manhã por Ueno... Vou ver a exposição especial "The Art of Zen: From Art to Form" que termina precisamente hoje... Aprendo algumas coisas sobre o dito Zen... Que basicamente tem 3 seitas, uma das quais entende que a prática equivale ao estado de alma que as outras duas dizem ser inalcançável... Que o círculo executado de uma só vez é o símbolo mais nobre desta filosofia inserida no budismo... Que a ideia já apreendida dos Arhat, aqueles que atingiram o nirvana, passa a incluir em doses variáveis o corte de membros superiores e o descalçar dos pés... De qualquer forma cristalizo  estética do Daruma ao ver pela primeira vez os 2 painéis pintados em papel que eu trago na minha memória... Revisito o espaço que descreve a Pré-história do Japão e onde se reúne a melhor colecção das culturas Jomon, Yayoi e Kofun... Entretanto só sobra tempo para um almoço frugal e encontro-me com uma grande amiga japonesa... Andamos pelo mercado de Ameyokocho, por onde andei ontem e onde fico a saber algo mais do mercado negro do pós-guerra e da origem americana do nome... Entre conversetas em português (para ela ir treinando, eheheheh) e promoções ao vivo de enka (melodias pop nostálgicas muito parecidas de alguma forma com o fado português) traçam-se esboços de possíveis futuros... Deixo-a junto à árvore de natal de Ueno (que em vez de bolas de Natal tem Pandas, o que faz todo o sentido só aqui em Ueno) e levo abraços para dar amanhã... Não sobra muito tempo para o meu segundo encontro de hoje que decorre em Ikebukuro, noutra parte de Tokyo... Chego com chuva que não despega, cumprimento e sou cumprimentado, apresento-me e sou apresentado... Cartões de visita fazem sempre tanta falta, eheheheheheh... E como não podia deixar de ser acaba-se à noite num restaurante chinês (Beijing style) diferente daquele que eu conheço (Taiwan style)... Conversa animada pela mesma comida de sempre mas com os sabores mais apurados... Entre arte e artistas, viagens e viajantes, amigos e conhecidos mesmo agora... Fala-se de tanta coisa... Mas não me esquecerei como passamos da degustação de ouro metálico no sake de Ano Novo para a saciação de prata nos banhos termais de dada onsen... Voltarei concerteza dentro de dias a este assunto... Na minha partida do restaurante e  regresso ao hotel decorrem muitas despedidas, algumas promessas e venho carregado com muito mais peso por causa do material da 1ª TKO MiniPrint... Ser "embaixador" de Portugal tem destas coisas, lololololol... Mas eu tenho os pés bem assentes na terra e caio muito depressa sempre na realidade... Aliás, realidade que me mostra a costura à mão debaixo do viaduto dos cubos de cartão dos, conforme algumas teorias ventilam, que praticam o sepuku social... Eu às vezes ponho muito em causa esta teoria que soa um pouco a "conversa de rico"... Mas é a primeira vez que vejo um sem-abrigo debaixo dum viaduto a costurar com cordel as placas de cartão  umas às outras até estas fazerem um cubo... Abasteço-me numa das milhares de centenas de loja de conveniência abertas 24 por dia... E acabo à noite a fazer e desfazer bagagem para a aventura dos próximos dias...

sábado, novembro 26, 2016

14ª Jornada Peregrina Oriente - 02 - Entre um Outono tardio e umaPrimavera inesperada

Chegada a Tokyo com um sol no céu azul-de-Miyazaki, troca de voucher europeu pelo passe JR em modo acelerado, monocarril de Haneda quase deserto, uma Ueno com tanta confiança à chegada que me faz andar aos desencontros no mapa... Primeira refeição é um menu combinado de soba (quente nesta época do ano porque eu prefiro fria mas estamos mesmo fora de estação) e de tempura... Aproveito o sol, que vai ser de pouca dura segundo as previsões meteorológicas, para passear no parque de Shinbozu em Ueno... Entre os amarelos das ginkgo e os vermelhos dos momiji... Entre as primeiras flores de cerejeira que já despontam... Passeio ao longo do lago de Shinobazu, nesta altura do ano totalmente carregado de folhas mortas dos lótus mas cheio de atividades perfomativas... Janto no Yoshinoya, uma das mais famosas cadeias de comida rápida japonesa onde se come muito barato e onde os menus promocionais seguem as estações do ano... No maior cidade do país onde a maior parte dos bairros não tem passeios salientes, onde os cabos e postos de eletricidade andam pelo ar em vez de andarem pelo chão, onde as fachadas de alguns edifícios em vez de janelas estarem forradas a ares condicionados...

sexta-feira, novembro 25, 2016

14ª Jornada Peregrina Oriente - 01 - O Inicio da Tal Peregrinação


Hoje dou início à décima quarta jornada por terras do país do Sol nascente... Ultrapassada a barreira psicológica da jornada décima terceira, fico com expectativa de perceber de que ciclo se estará a iniciar com esta viagem... Ainda por cima uma viagem totalmente inesperada e não programada... Do tipo, tenho para ali uns dias de ferias esquecidos, o que hei-de fazer com eles? Predeterminado o meu regresso ao Japão fico em pânico porque não faço a menor ideia do que haverá para fazer, para visitar, para cumprimentar... E é desta forma assustada que me recordo de me dizerem que mais importante do que o próprio caminho, o que vale mesmo é o acto de o percorrer... Hummmmm... O lema da viagem fica também assim predestinado... Quando me perguntam o que busco, qual o meu objectivo e o que espero trazer de lá... Eu respondo que não sei, que não quero saber porque o que importa é avaliar o desgaste das solas e secar a roupa da chuva... Catorze vezes depois dou por mim a viajar pelos aeroportos mais calmos do mundo, a encher páginas e páginas de papel com esboços a lápis, sem grandes e profundos pensamentos... Inicia-se deste modo mais está jornada...

domingo, novembro 20, 2016

domingo, setembro 25, 2016

Jomon, Yayoi e Kofun

Conhecendo algumas técnicas de gravura há algum tempo... Sendo sócio da AGAF há uns dois anos e tal.. Tenho um pouco de vergonha de dizer isto mas... Esta é na realidade a  minha primeira gravura na ancestral técnica de água-forte...

domingo, maio 22, 2016

O 13º Círculo - Tomo 30 - O País do Sol Nascente e o País do Sol Poente

Existem sempre truques para lidar com uma partida tão cedo... A cidade de Tokyo nunca dorme mas é difícil perceber isso quando se janta regularmente por volta das 18:00... Convém talvez reforçar que na cidade que nunca dorme existem só alguns sítios que nunca dormem... As lojas de conveniência, os MacDonalds designados, alguns bares obviamente, coisas deste tipo... Vou buscar a minha bagagem, atravesso Shinjuku e fico bloqueado nas escadas rolantes que estão desligadas... As escadas rolantes dormem na cidade que nunca dorme... Depois de chegar ao terminal de partida de autocarros expresso, que também ainda está fechado, sou atormentado pela terceira vez por um stalker... Fico só espantado porque até fala inglês melhor do que muito japonês com um bocadinho de melhor aspeto... Chego ao aeroporto, pago o excesso de bagagem que eu já estava a contar, faço em 2 minutos o controlo de raios X, a alfândega e os passaportes... Todas as loja estão fechadas e por isso espero... Não muito porque adiantaram a hora de partida do voo... É bom nunca vir em cima da hora... Mas... O destino tem destas coisas... Uma avaria no piloto automático obriga a um atraso de mais de 3 horas... São só três horas e meia de atraso porque havia uma peça sobressalente no aeroporto... O número de vénias com que nos presenteiam é diretamente proporcional à consternação estampada na equipa de terra... Mas com este atraso imenso perco a minha confortável ligação em Charles de Gaulle... Neste dia mais longo, em que o sol anda um bocadinho menos depressa do que é normal, também é dia de fazer balanços... O primeiro balanço é que esta viagem foi extremamente social, tendo talvez estado uns meros 6 dias sem a presença de amigos ou conhecidos... O segundo balanço tem a ver com as alterações de programa causadas por Kumamoto e que no final de contas só vieram proporcionar uma segunda espiral de acontecimentos a decorrer já a partir do próximo ano... O terceiro balanço tem a ver com o ter estado 4 semanas de seguida do Japão e sentir-me bem, sem o tal formigueiro a entupir-me a respiração cutânea... Na semana em que se descobre que a palavra "sayonara" deixou de ser usada por mais de 70% dos japoneses... Concerteza que o novamente campeão de sumo Hakuho também não dirá sayonara, não... Segundo um artigo recentemente publicado algumas das expressões que substituem o tradicional adeus japonês são: Ja ne. (See ya), Mata ne/kondo/ashita/raishuu. (See you later/next time/tomorrow/next week), Shitsurei shimasu. (I’m sorry for having been rude – on ending a phone call, leaving work, etc.), Osaki ni shitsurei shimasu. (I’m sorry for rudely leaving before you [at work]), Otsukaresama desu. (You must be tired, thank you for your work.), Gokigenyou. (Fare thee well – if you want to sound fancy), Bai bai. (If you want to sound cute)... Eu digo sempre um simples "mata kondo"!

sábado, maio 21, 2016

O 13º Círculo - Tomo 29 - Do Japão Medieval para Marte Terraformado

Último dia, dito dia e não madrugada, em Tokyo... Tudo nas calmas mas tudo com dor sofrida porque sem querer estou aqui há um mês inteiro e ainda sem muitas saudades incontroláveis... Com alguma resistência por parte do staff (será por causa do G7?) deixo a bagagem no hotel sabendo que terei que me ocupar de qualquer forma, de qualquer jeito, até às 3:00 da próxima madrugada... Podia escolher ir ao Shinjuku Gyokoen mesmo aqui ao lado e simplesmente passar lá todo o período de luz do dia a observar os canteiros de rododendros e as arcadas de glicínias... Podia ir ao cinema a uma daquelas sessões mais tardias e ver o blockbuster japonês adaptado do manga "Terraformars" e passar assim o início da noite no meio de baratas gigantes... Deixo que o meu desespero de preencher estas últimas horas me dite de modo aleatório o rumo... TokyuHands, uma loja onde se pode comprar de tudo, para começar o programa pareceu-me estranho mas depois percebi que tenho a chegar os aniversários de verão de todos os meus amigos e entendo que tenha que lá ter estado... Um desvio clandestino para Okubo e em pouco menos de uma hora de permanência neste bairro periférico a Shinjuku  destacaria o meu almoço com os trabalhadores locais e a não pontualidade japonesa... Pontualidade que no fim de contas também não é típica dos portugueses... Vou para o parque Yoyogi que, na minha opinião, deveria estar a abarrotar de gente... Engano meu... Estava muito para além do rebentar pelas costuras porque também decorria ali perto o Okinawa Matsuri Street Festival... Com o início do verão à porta o corrupio de festivais vai acelerar até ao pico de agosto... Arranjo uma bebida (desengane-se o caro leitor porque tratou-se só de uma soft drink) e descortino um assento num muro... De fato e gravata em cima de um muro com os cheiros (que vão dos fumos dos yakitori aos molhos ácidos dos takoyaki) e os sons (que vão do património folclórico das ilhas de Ryoku até aos trances histéricos de raves)... A beber a minha Poccari Sweat ao lado de um bébé que bebe leite pelo biberão e de um sem-abrigo que bebe álcool (sochu?) por uma garrafa tapada... Entre bolhas de sabão criadas pelas crianças e performances demonstrativas executadas pela fauna de Tokyo eu diria que é fácil passar a tarde desta forma... Admiro a capacidade dos japoneses de estenderem um plástico (bem mais pratico e leve do que a nossa manta) em qualquer sítio, irem às máquinas buscar bebidas e às tascas buscar comidas e passarem assim o dia... Até voltarem a dobrar o plástico e o guardarem na malinha até ao próximo piquenique... Eu... Eu não tenho plástico... Aliás tenho... Tenho um em Lisboa dentro do armário porque não voltei a precisar dele... O que me devolve a recordação das praias de coral de Okinawa... Coincidência? Esta viagem que encerra ciclos e que dá início a outros... Como eu vou dando o lugar aos outros grupos de japoneses que chegam e que partem... E eu vou-me movendo, tipo maré, de um lado do muro para o outro e vice-versa... Parto para o Parque Yoyogi propriamente dito para o meu local preferido ao pé do lago... O meu artista preferido também ali está com as suas performances musicais e artísticas... Recordo o corvo que desenhei da última vez na árvore do lago e tenho uma surpresa... Não sei se é coincidência mas desta vez estão dois corvos na árvore do lago... Para a próxima estarão lá 3 corvos? Decido ir ao templo Meiji-jingu onde deixo as minhas preces e onde continuam a decorrer casamentos tradicionais shinto a toda a hora... Embarco na aventura de ir a pé dali para Shinjuku e, pasme-se, desta vez não me perco nada... Derreado, arrasto-me para ver o por de sol no observatório grátis no 45º andar da torre norte do edifício do governo... E quando chego já do outro lado de Shinjuku com a noite já caída e os restaurantes a abarrotar de gente... A noite continua...

sexta-feira, maio 20, 2016

O 13º Círculo - Tomo 28 - Da Escassez de Yokai e da Abundância de Estábulos

Depressão a dois dias da partida... Perfeitamente normal mas que me faz andar mal humorado na maior parte da manhã... Vou para Ryogoku, terra de museus nas nuvens e de lutadores sumo nas arenas... A minha ideia era ver a exposição temporária anunciada sobre Yokai no museu Edo-Tokyo, a qual abre em Julho... Julho... Li mal o folheto e fico um pouco à toa... Esta contrariedade não abona em favor da depressão... Mas, e embora já tenha visto este museu, decido revisitar a exposição permanente que conta a história desde a criação de Edo até ao nascimento de Tokyo... O museu, estranho na sua grandiosidade para um turista ocidental, acaba por ser bastante interessante e tem a preocupação de colocar sempre alguma informação, mesmo que básica, em inglês... E eu acho até por estar por ali muito para além da hora do almoço... Quando saio vejo as multidões junto à arena de sumo... Este domingo é a grande final do campeonato anual e os campeões que vão chegando são saudados com aplausos e uma carrada de fotografias... Alguns deles, provavelmente dirigindo-se aos seus estábulos, passam por mim com toda a naturalidade... Um deles inclusivamente vai paralelo a mim a caminho da estação para apanhar um comboio... Embora os bilhetes estejam todos esgotados desde há muito tempo reparo nos habituais personagens que vendem, provavelmente a preços proibitivos, bilhetes aos transeuntes sedentos de sumo... Reparo também na enorme quantidade de polícias que andam por ali, mas não só... Que andam por Tokyo inteira... No espaço de uma semana a invisibilidade das forças da ordem desapareceu por causa da preparação do encontro dos G-7... Nota-se de facto que no espaço de dois dias existem algumas alterações... Inclusive existem anúncios por toda a parte a informar que os cacifos para deixar bagagem nas estações estarão interditos e serão esvaziados... Os receios de terrorismo, com as últimas consequências na Europa, que me vão transmitido nestas últimas quatro semanas terão brevemente um rosto nestas paragens... Felizmente que nessa data já não estarei por aqui...

quinta-feira, maio 19, 2016

O 13º Círculo - Tomo 27 - A Estranha Inversão dos Dramas do Quotodiano

O encontro com um professor universitário japonês prestes a viajar para Portugal é resultado destes acasos de encontros e reencontros... Regresso ao museu de Ota em Omotesando porque abriu nova exposição de ukiyo-e das 53 estações da linha Tokaido que ligava Edo a Kyoto do artista japonês Hiroshige... Já tinha tido a experiência destas visitas acompanhado e os resultados são sempre muito mais enriquecedores na medida em que os locais revelam-nos sempre temas insuspeitados... Por exemplo... Que na linha Tokaido viajavam a pé essencialmente os senhores feudais para prestar homenagem anual ao imperador, o qual os mantinha desta forma sob controlo obrigando-os a afastarem-se dos seus afazeres, a gastar uma quantidade inacreditável de dinheiro ao longo do caminho... Mas também havia gente comum a viajar, mercadores, mulheres sozinhas, monges, campeões de sumo e salteadores... Nesta exposição temos oportunidade de ver várias cópias da mesma gravura é que por vezes são totalmente diferentes uma da outra... Mas não estão em exposição todas as 53 estações, sendo que a de Fujieda, terra natal de um meu amigo pintor, é uma das últimas...Temos também oportunidade de ver trabalhos percursores antecedentes de grandes obras primas (como é o caso do monte Fuji vislumbrado pelo meio de uma falha de um Pinheiro)... Vamos de seguida para o museu de arte da Idemitsu, empresa petrolífera japonesa que também podemos encontrar em Portugal... A exposição, a segunda de série de três, que exibe trabalhos de suiboku (tinta preta em papel branco) celebra os 50 anos do museu Idemitsu Bijutsukan... A qualidade dos trabalhos é indescritível (nomeadamente o de Watanabe Kazan) mas o que me chama a atenção são os cadernos de viagem com mais de 300 anos... Eu próprio revejo-me naqueles trabalhos na medida em que desenho e construo o meu diário gráfico de viagem com sketchs ao longo destas andanças... Atravessamos Ginza, passamos em frente ao Kabuki-za e chegamos finalmente a Tsukiji para um almoço tardio... Um almoço em Tsukiji só pode ser de sashimi ou, quando muito, de sushi... E um almoço em Tsukiji, no dia de hoje, será seguramente o último que faço naquela zona porque me 2020 decorrerão aqui os Jogos Olímpicos de Tokyo... Todo este mercado de peixe de Tokyo, o mais importante do país é um dos maiores no mundo, vai ser deslocado da sua localização privilegiada junto ao rio Sumida para ser recolocado numa ilha artificial ainda a construir... Quando se associa este assunto com o recente escândalo das luvas olímpicas percebe-se que muita história fica por descrever... Pouco depois atravessamos uma arcada comercial só com restaurantes Monja... Inacreditável que até anteontem este prato me era totalmente desconhecido e que agora me cruzo por duas vezes com ele... Comento a minha paixão pelas Koban (postos da polícia) em Tokyo... Paixão gerada muito mais pela sua multiplicidade infinita (não há duas iguais) do que pela sua real função (dar informações sobre moradas)... O meu guia inclusive chama-me a atenção para o fato de observarmos um polícia fora da estação e um rapazinho com o joelho ferido ao balcão, como se estivéssemos a assistir a uma situação invertida... Esta paixão pelas Koban associa-se também pela minha paixão pelas caixas de correio das casas... Talvez esteja aqui o germe de um novo projecto? Quem sabe? Feitas as despedidas, assegurando previamente e por diversas vezes o meu guia de que sou capaz de não me perder, regresso a Shinkuku com a ideia de preparar a minha partida convenientemente... E fico embasbacado porque a nova estação de comboios JR que abriu há cerca de um ano afinal tem também um gigantesco parque de táxis no 3º andar e um terminal de autocarros expressos no 4º andar... Compro o meu bilhete de domingo e dou o dia por finalizado... Mas afinal o dia não quer ainda finalizar porque me confronta ainda com um oshihake (versão japonesa de um stalker)... A pressão do Quotodiano japonês decididamente cria por si mesma os seus próprios monstros...

quarta-feira, maio 18, 2016

O 13º Círculo - Tomo 26 - Troca das Reduzidas Saias das Varinas de Zushi pelas Impressionantes Barbatanas de Enoshima

O pernoitar dias seguidos num hotel de relativo luxo permite-me ter acesso ao shinbun (jornal) local em inglês... A leitura das notícias nestes dias abrem-me o olhar para temas insuspeitados: a doença crônica há 60 anos de Minamata (envenamento com metilmercurio na província de Kumamoto derivada de poluição industrial nunca assumida), os detalhes dos escândalos da negação da Mitsubishi relativamente às alterações dos resultados dos testes de emissões poluentes, a procura de escovas de dentes japonesas, os resultados dos combates diários do campeonato de sumo, os esforços do mundo início de reconstrução anunciada hoje em Kumamoto porque 70 dos refúgios designados ficaram destruídos... Hoje era para ser acompanhado por um local numa pequena excursão mas... Com a minha ausência noturna de ontem acabamos por adiar... Duma coisa estou certo... Os japoneses são totalmente impermeáveis ao improviso... Sendo assim saio do hotel a pensar ir ao museu de ukiyo-e de Harajuku mas acabo por ser desviado com o anúncio da partida de um comboio para Zushi... Neste dIa de sol eu seria um ser amorfo perdido entre as paredes de um museu, e num impulso súbito, mudo o meu destino para a cidade amiga junto ao mar... E num último improviso, muito motivado pela saudade do trilho de Kita-Kamakura com que me cruzo, saio em Kamakura com destino a Enoshima... Enoshima, ilha lotada por uma ponte e que surgia nalgumas gravuras do ukiyo-e com o monte Fuji à distância, que eu ainda não conheço e que por isso ganha com vantagem significativa nesta corrida das improbabilidades... Atravesso a ponte, admiro o monte Fuji, almoço peixe (quase obrigatório aqui na ilha), subo aos templos,  subo ao observatório, desço ao mar, ando por ali nas rochas planas, regresso de barco... Ainda tenho tempo suficiente para ir ao aquário EnoSui e é para lá que eu vou até porque o sol está muito forte... Regresso a Tokyo onde descubro que voltei a acabar de esgotar o saldo do meu SUICA (os transportes são mesmo caros no Japão), vou às compras na loja de arte SEIKADO mesmo perto do hotel, informo-me sobre o modo de chegar a Haneda fora de horas, janto e dou uma volta... Nada mal esta ocupação de tempo para quem não tinha nada para fazer durante uma semana em Tokyo...

terça-feira, maio 17, 2016

O 13º Círculo - Tomo 25 - Nem Tudo o Que vem de Kyoto é assim tão Bera

No dia que eu destino ao Tokyo Metropolitan Art Museum em Ueno para a tal visita da exposição que celebra os 300 anos do nascimento de Jakuchu Itō... Chove a cântaros... Chego ao local pelas 07:00 da manhã e está uma fila medonha... Eu não tenho bilhete e dizem-me que para não esperar muito que o melhor será ir comprar o bilhete ao Family Mart... Mais 20 minutos e regresso à fila que entretanto triplicou... Chove a cântaros como já tinha dito... Totalmente encharcado entro na exposição pelas 10:00,o que não é nada mau... A exposição é maravilhosa e reúne pela primeira vez séries de trabalhos que estavam espalhadas pelo mundo... O pintor de Kyoto é conhecido pela forma como, embora tendo aprendido a pintar só aos 40 anos, utiliza os parcos recursos da época... Não nos podemos esquecer que alguns pigmentos, tal como o azul Prússia, só chegaram ao Japão no século XIX... Ele utiliza a cor da própria seda para criar novos tons e com a sobreposição de invisíveis gotas de tinta aumenta as cores da sua paleta... E incrivelmente a dimensão dos seus traços rasga quase a escala microscópica... Os temas naturais (muitos galos e galinhas mas não só) são a sua expressão máxima e alguns dos seus trabalhos em série (um dos quais demorou 10 anos a pintar) ficam na memória... Quando o seu estúdio de Kyoto ardeu começou a pintar só com tinta da China e o biombo da baleia e do elefante são impressionantes pela ousada composição... Assim como alguns dos seus trabalhos de vanguarda voltam a surpreender como é o caso do mosaico do elefante... Quando expressaram à semelhança do seu trabalho como a minha própria exposição "Tabisuru Uma" fiquei honrado mas depois de ver o trabalho real fico com a certeza de que não existe comparação possível com uma mestria deste nível... À saída do museu, por volta do meio dia, a fila de visitantes que aguardam entrada estende-se por quilómetros desenvolvendo uma fila espiral em torno do parque de Ueno... Inacreditável mas compreensível porque a duração da exposição são só quatro semanas e acaba na próxima... Encontro-me no Karimanon de Asakusa (óptimo ponto de encontro) com um artista rebelde de Tokyo que conheci em dezembro do ano passado... O percurso em conjunto desenrola-se com um almoço de monja (a variante de Asakusa do okonomiyaki de Osaka), a visita do seu atelier partilhado com outros artistas em Kuramae (um bairro a sul de Asakusa que está a ser revitalizado nos últimos meses com lojas e cafés  incríveis) e uma longa viagem de 5 horas para desgustar as famosas gyozas de Utsunomiya (cidade a 120 quilómetros a norte de Tokyo)... Gyozas de Shisō (folha verde aromática muito utilizada no sushi), gyozas fritas, gyozas cozidas a vapor, gyozas envolvidas em plantas aromáticas, gyozas picantes, de grande formato, de pizza... Ao fim de 3 restaurantes (considerado o número mínimo para uma boa experiência gastronómica) de cerca de 17 gyozas (considerado abaixo do mínimo de 20 por refeição) fico enjoado, o que contado assim de repente ninguém acreditaria... Mas a receita local de molho, em que a porção de vinagre é bastante superior à do molho de soja e em que a porção de picante é superior ao seu regular uso, deve estar na origem desta dificuldade em atingir metas... Para desespero de alguns tokyotitas que andam à minha procura, chego a Tokyo já de madrugada por causa desta viagem insuspeitada... Aviso ao turista passageiro: quando abordarem o tema das gyozas com os locais sejam moderados nos vossos elogios ou podem acabar por se ver raptados em direção a Utsunomiya, lololololol

segunda-feira, maio 16, 2016

O 13º Círculo - Tomo 24 - Jinshin

No dia em que todos os museus, a maior parte dos jardins (incluindo o próprio zoo) estão fechados é natural que eu procure alternativas... Por isso sigo as dicas de explorar algumas zonas bem a norte de Ikebukuro... O meu primeiro destino é Kawagoe à qual chego pela linha ferroviária da Tobu Tojo... O cartão SUICA é na realidade bastante prático porque pode ser utilizado em todos os transportes de qualquer companhia sem termos que ter outros cuidados... Nomeadamente não temos sempre que andar a ver quanto é que custa o bilhete para a estação de destino... Até porque a maior parte destas indicações só está expressa em japonês... Pois... Ontem por acaso até comentei que o museu que eu visitei em Yanaka do escultor se evidenciava pelo cuidado de haver informação disponível em inglês em todas as salas e em todas as etiquetas das obras... Algo incrivelmente raro e de louvar... A questão da linguagem vai ser mesmo um problema real em 2020 com os Jogos Olímpicos de Tokyo... Mas na minha chegada a Kawagoe sou surpreendido porque quando me perguntam qual é o meu país o intuito é entregarem-me um guia em português e nem tanto para efeitos de estatística... Tenho ouvido dos locais opiniões diversas sobre Kawagoe... Para uns é meramente turístico e por isso mesmo pouco genuíno... Para outros é muito bonito e por isso mesmo indispensável... Na realidade trata-se só quase de uma rua de lojas em pequenos edifícios bem antigos... Mas a atmosfera, mesmo apesar da torre estar totalmente tapada dado às obras de remodelação que decorrem, é bastante boa... Almoço uma especialidade de tofu, que na realidade é uma degustação de diferentes tipos de tofu e dos sabores que os podem acompanhar... Com a exceção da bebida de leite de soja com macha, que na minha opinião sabia um pouco a óleo, a refeição totalmente vegetariana foi uma boa experiência... Regresso a Shinjuku sem ter ido ao Tokyo Daibutsu no templo Jorenji... Durmo uma pequena sesta e vou para Ikebukuro jantar com o grupo de meus amigos gravadores... Na realidade o grupo de hoje é um pouco diverso porque entre médicos e engenheiros, entre violonistas e escultores... Há de tudo um pouco... Há dois motivos para este encontro: a minha visita e a partida de uma amiga para Kumamoto... Mostra-me imagens da casa dela, com o telhado todo retorcido e azulejos partidos na casa de banho... Narra que quando uns desconhecidos com uns bébés lhe pediram para ficar na casa que estava vazia, ela acedeu de imediato sem os conhecer de lado nenhum... O ruído no restaurante é particularmente ensurdecedor porque decorre um jantar do pessoal dos escritórios... Os japoneses quando saem do trabalho, e antes de irem para casa,  vão sempre para os copos... Este saudável ritual tem 2 objectivos: destressar e reforçar espírito de equipa... É quase obrigatório estar presente e a chegada do chefe levanta ainda mais o ânimo... Estamos neste tipo de conversas quando todos os telemóveis se põem aos gritos... Os meus amigos agitam-se todos e então eu sinto o tremor de terra escala 5,4... Toda a rede de telemóveis no Japão dispõe deste sistema de alerta que permite avisar com alguns segundos de antecedência este tipo de fenómenos... Os candeeiros abanam e o tremor prolonga-se algum tempo... No entanto, apesar da minha vontade de me por dali para fora, ninguém se levanta e eu sigo o exemplo... É o terceiro tremor de terra que eu sinto conscientemente no Japão... O de grau 5 do outro dia em Usuki não conta porque eu não me apercebi dele... Toma-se macha latte com gelo enquanto se discute correlação inversa de curvas de importações de gás natural com políticas cambiais que destroem a economia... Fala-se que a economia sobrevive com o mercado interno... O que leva à conversa sobre a pressão demográfica do baby boom dos anos 50 (pós-guerra, portanto)... E desemboca na relação de 2,8 entre o salário mínimo nacional português e o primeiro ordenado de um empregado Junior recém-formado... Fala-se sobretudo dos terramotos e sinto que se personaliza o terror da vida no dia a dia após os terramotos... É que o terramoto é algo mau mas viver depois com as consequências não é melhor...

domingo, maio 15, 2016

O 13º Círculo - Tomo 23 - As atribulações de um mangaka português na antiga Edo

No dia em que faz um mês após o terramoto de Kumamoto faz 3 semanas que aterrei no Japão... Na realidade já decorreram 1430 terramotos na sequência desse singular evento... Na realidade este terramoto é ainda inédito porque desencadeou inúmeros outros terramotos nas falhas que atravessam Kyushu, indo de Minamishimabara até Oita... Destabilizando toda a área os japoneses expressam o seu receio porque deixaram de poder prever onde decorrerá outro... Hoje a minha garganta parece ela própria um terramoto naquele meu processo alérgico do ciclo garganta-nariz-garganta... Tenho planeado o encontro com uma japonesa de Sasebo (amigos de amigos meus amigos são, lolololol) que me irá mostrar uns bairros (Yanaka e Nezu) dos recônditos de meandros de Ueno... Estes dois bairros foram-me recomendados há 3 semanas pelo meu amigo pintor de Shizuoka e a sua simples menção causaram espanto na minha guia... Ela ficou a pensar que eu conheço Tokyo como a palma das minhas mãos, lolololol... Mas antes fazemos duas paragens muito úteis: uma para comprar o meu primeiro cartão SUICA (que me irá dar acesso à rede de transportes de Tokyo nesta próxima semana) e outra numa drogaria para comprar um remédio para as minhas dores de garganta... O bairro de Yanaka, que alcançamos através da estação JR Nippori, é muito interessante porque Tokyo foi bastante arrasada na XX Guerra Mundial mas esta aérea acabou por ser poupada... Por essa mesma razão tem imensos templos na medida em que naquela época por um lado havia poucos templos intactos e por outro lado neste bairro existiam todas as outras infraestruturas também intactas... Visitamos um museu de escultura, um restaurante de caril, umas estruturas museológicas de uma antiga fábrica de sakê, um lindíssimo bar de cerveja artesanal e uns templos budistas... Reaprendo a palavra karamasu (barracuda), a lenda do rapaz Umashimatarō que ficou velho num instante porque não respeitou a regra de não abrir a caixa e as máscaras do casal risonho Hyotokko e Okame... Quando dou por mim estamos em Ueno, atravessamos a fila de 3 horas do museu da exposição do Jakuchō, revejo o lago de nenúfares e visitamos um pequeno museu sobre a Tokyo do início do século XX... Despedimo-nos porque eu ainda vou para o último dia do Asakusa Sanja Matsuri... Festa, portanto...Com mikoshis, takoyakis, música, multidão de pessoas e muita animação... Regresso a Shinjuku para um encontro de jantar que encerra o meu dia de hoje...

sábado, maio 14, 2016

O 13º Círculo - Tomo 22 - Nascemos Shintō e Morremos Budistas

Adeus take (bambus)... Falo com a recepcionista para que encaminhem os bambus abandonados... Cheio de sono, com o estômago a latejar da refeição matinal japonesa (mesmo assim consegui evitar a parte do peixe), com uma alergia brutal que não me larga desde ontem, digo mais uma vez sayonara a Usuki... Esperam-me 9 horas e meia de viagem se não falhar nenhum comboio... Mas falhar comboios no Japão, mesmo quando só se tem 2 minutos de transferência, é coisa não impossível mas mesmo assim muito rara... Dá inclusivamente para comprar mantimentos (sandes pequeninas, makis, bentōs, macha latte e chá verde) nas 3 transferências que faço, em que algumas delas nem mudo de cais de embarque... A dada altura no infinito verde da viagem... Dou comigo a pedir aos deuses, do Japão no geral e aos de Usuki em particular, que me permitam regressar... Não sou religioso mas sou espiritual... A religião no Japão é uma trapalhada e penso que mesmo os japoneses têm alguma dificuldade em entender... Basicamente há duas religiões: o shintoismo e o budismo... Há mais, mas estas duas são as principais e com maior expressão... Há inclusivamente aquilo a que poderíamos chamar de seitas religiosas... De que não irei falar até por se tratar de um tema por vezes demasiado quente por estas bandas... Só em jeito de apontamento, diga-se que esta questão das seitas tem por vezes contornos financeiros e políticos bastante pronunciados... Os templos Shintō têm sempre um torii (entrada que devemos atravessar sempre do lado direito porque o centro está reservado às divindades), um caminho a percorrer (de preferencia uma escadaria monumental para deixarmos para trás as coisas fáceis da vida), decorações de papel e corda, um sítio para lavarmos as mãos (primeiro mão direita, depois mão esquerda, depois boca e o resto da água lava o cabo da colher) e o ritual de dar uma oferenda em dinheiro, tocar o sino, fazer uma vénia 2 vezes, bater palmas 2 vezes e por fim, numa última vénia, pedir o nosso desejo... O shintoismo é a religião primordial do Japão... É no shintoismo que encontramos os mitos da criação da nação... Já o budismo é uma importação recente (secular obviamente) da China... Os budas desdobram-se infinitamente em imagens que são veneradas... Tudo muito facilitado, sem escadarias para subir e descer... Portanto sem aquele "sacrifício" tipicamente shintoista... Espero não estar a incorrer em algum erro pois sou praticamente leigo na matéria... Mas após 10 anos consecutivos de viagens é esta a imagem que guardo das 2 principais religiões do Japão... Chego a Tokyo... Desço em Shinjuku... Ainda tinha pensado em reservar hotel em Ueno, bairro um pouco antigo mas que eu adoro, contudo Shinjuku tem um magnetismo de modernidade incontornável... Vou a Harajuku ver a nova exposição de ukiyo-e e dou também um salto a Omotesando Hills pois lá está a decorrer a Tokyo International Art Fair... Nao confundir com a que decorre na mesma data no Tokyo Fórum que eu vi há dois anos atrás... O nível desta é mais básico mas mesmo assim com algumas surpresas... Tenho sempre uma sorte incrível com as minhas datas nestas deslocações e aproveito os eventos que decorrem... Muito cansado no final do dia penso no provérbio japonês "nascemos shintō e morremos budistas" para me rir às gargalhadas porque eu ainda estou seguramente na fase shintō... Com energia suficiente para percorrer os longos caminhos... ;)

sexta-feira, maio 13, 2016

O 13º Círculo - Tomo 21 - A Instrumentalização da Saudade

Decorrem 21 dias intensos de viagem, com a prevista desmontagem da exposição "Tabisuru Uma" programada para hoje, com o início da minha febre alérgica aos pólens dos cedros que se começam agora a libertar... É natural que me sinta já cansado, com um tudo ou nada daquele fenómeno a que eu chamo de "os poros da pele entupidos com Japão"... Vou tentar explicar melhor... Ontem dei por mim a atravessar uma passadeira com o sinal vermelho... Numa mesma rua mas numa passadeira abaixo dois turistas estrangeiros tinham acabado de fazer o mesmo e eu tinha condescendido sarcasticamente... Para meramente um minuto depois estar eu próprio a fazer o mesmo... Um dia perguntaram-me porque é que os japoneses não passavam a passadeira mesmo que não haja carros... Eu respondi, intrigado com esta ideia suicida, se era suposto passarem com o sinal vermelho... Esta maneira de estar onde tudo funciona de forma ordenada é relaxante... Na maior parte das vezes... Noutras ocasiões, e surgindo quase sempre de forma súbita, este caos ordenado que aqui se vive cria-me alguns anticorpos... Preciso então de respirar... Sinto como que se os meus poros ficassem entupidos com Japão e se desse a narcose por asfixia cutânea... O problema não está no Japão, obviamente, mas sim no esforço de reconciliação da nossa ocidentalidade com esta cultura diferente... O problema está talvez na saudade... No meu exercício íntimo da saudade... Uma saudade que se manifesta repentinamente sem o nosso controlo absoluto... Por isso mesmo passar uma boa parte da manhã a lavar roupa pareceu-me uma boa ideia para acalmar... Que outra coisa eu poderia ter escolhido para me levar de volta na minha imaginação a Portugal? A casa? Lolololololol... Aproveito o resto da manhã para ir visitar um espaço que já não vejo há dez anos: a propriedade da família Inaba de samurais... Foi aqui que há dez anos Usuki realmente me surpreendeu após uma série de pequenas peripécias portuguesas com uma oferta de cerimónia de chá onde me anunciaram o nome de uma grande amiga minha... ;) Depois o espaço entrou em obras de beneficiação e, mesmo depois de terem acabado, as minhas posteriores visitas têm sido sempre a correr... Na lojinha reconhecem-me pelo meu trabalho... E para almoçar seria imperdoável não ir ao bar Portugla (que está mal escrito de propósito mas que nunca percebi bem porquê)... Como uma especialidade de Usuki com arroz amarelo de kuchinashi (uma planta arbustiva que diluída em àgua liberta uma bonita cor amarela)... Isto leva-nos a falar de comida portuguesa (também das queijadas de Sintra que eu levei há 8 anos) e onde eu aprendo que também existe aqui no Japão bacalhau seco e salgado mas que é importado da Rússia... Descubro que o bar detém ainda os meus cartões de visita de há 8 anos e deste modo acabamos por ficar amigos no Facebook, outra coisa que não havia há oito anos... Existe alguma diferença entre os graus de amizade destes primeiros relacionamentos em relação aos dos mais recentes... Nos primeiros relacionamentos nunca deixamos o formalismo de fora... Não me perguntem porquê mas é assim que acontece... Nos relacionamentos mais recentes começamos logo a abrir... Talvez o modo como surgem... De um modo muito formal no passado... Agora de forma oficial mas bastante descontraída... Penso que estas duas formas de iniciar contactos tenha especial impacto nesta sensação a longo prazo que descrevi... Decorre a desmontagem com um primeiro agradecimento pela experiência que foi proporcionada... A desmontagem em si decorre sem problemas mas sou confrontado com uma importante questão: conseguirei transportar comigo os 24 bambus? A logística direta para Portugal não parece favorável e por isso vou a Oita ver se consigo arranjar uma mala maior... O problema é que eu já me tinha esquecido que os japoneses viajam sem bagagem e por isso as malas de viagem que eu encontro são, na melhor das hipóteses, iguais à que eu tenho... Preciso de uma mala maior que eu não encontro e por isso o destino dos bambus fica traçado... Depois destas andanças todas deixo os meus bambus verdes em Usuki... Buaaaaaà!