O Reino Analógico
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Também para provar que ainda uso papel... Nem que sejam toalhas de papel de
mesas de restaurantes onde, também, se servem cafés...
Há 2 dias

Primeira aula do ano... Aula de kakizome (書き初め)... Manda a tradição que no 14º dia do ano se queime o nosso papel com o kanjii do nosso desejo... Se as cinzas deste voarem mais alto, no próximo ano a nossa escrita será mais firme... Mas eu nem o meu nome nem a data me saem já firmes, buááááááá... x_x
A última aula do ano correspondeu ao jantar de Natal... O nosso sensei esteve na cozinha a preparar uma refeição tipicamente japonesa com ingredientes japoneses... Houve uma pequena introdução ao tema dos onigiri mas bem depressa todos tinhamos posto mas era as mãos no arroz... Literalmente... Eu fiz dois onigiri, um com pasta de atum e outro com salmão grelhado... Mas a forma triangular das minhas doses deixou muito a desejar... Sopa com carne de porco e com pasta de amido (katakuriko?)... Bebidas (sake para os corajosos e calpis diluído para adoçar a boca) ... Pickles de beterraba mesmo ao sabor do sol nascente... Ameixas japonesas em conserva (umeboshi)... E desgustação de edamame ainda bem verdinho... Conhecer melhor a turma dos avançados foi também um dos pontos altos...
Ao final de duas dezenas de aulas sinto-me às vezes perdido com a quantidade de gramática, de vocabulário, de verbos e de adjectivos, de simples hiraganas e de temas japoneses que têm sido dados pelo nosso sensei... Terei obvamente que estudar um pouco nas férias de Natal que se aproximam para por as ideias em ordem... E contudo, nestas últimas aulas do final do ano 2011, há um ambiente de celebração de eventos... Hoje, e com vista a preparar a primeira aula do ano novo que se aproxima a passos largos, acabamos por andar a rabiscar com caneta no caderno e com pincel de tinta no papel... Palavras que celebram os nossos votos de ano novo... Alguns lugares comuns... Algumas palavras mais fortes e misteriosas... Eu já tinha escolhido há bastante tempo a minha palavra de votos... Uma palavra que um dia alguém me entregou e que eu miro todos os dias... Uma palavra que me vi um dia destes a retribuir porque existe sempre quem precise... É verdade que a minha palavra acaba por ser um pouco misteriosa... Mas acima de tudo é uma palavra extremamente forte... Pois aqui fica o meu voto para o ano que ainda não nasceu... Pois acho que todos nós vamos precisar dela... ^-^
Eu sempre gostei muito de banda desenhada e bem depressa saí dos lugares comuns desta 9ª arte: fanzines do Mickey Mouse, albúns do Tintin ou comics do Homem Aranha... O meu primeiro contacto com Cosey foi na revista portuguesa «Tintin»... Na década de 80 a revista «Tintin», com a sua produção franco-belga já afirmada, rompia com muito do que se via nesta linguagem gráfica... E contudo... Cosey terá sido a primeira banda desenhada belga que eu li daquilo que se viria anos mais tarde a chamar de romance gráfico... Temas orientais omnipresentes, um grafismo limpo mas com algo de caderno de viagem, cores sólidas, poesia e humanitarismo, grandes espaços asiáticos... Da Indía para o Nepal, dos USA para a China, do Tibete para a Birmânia... Por fim, o Japão... O 15º tomo nesta longa série «Jonathan» introduz pela primeira vez o país do Sol Nascente... E a poesia haiku, mesmo que a métrica assumidamente resvale em Takayama, dá o tom certo a mais esta aventura... Uma esperança continua a residir em mim, mesmo neste dia funesto de más notícias... Será que o personagem Jonathan continuará por lá no próximo 16º tomo?
Faz quase 2 anos visitei um espaço expositivo fantástico em Lisboa que reunia o trabalho de vários artistas do Japão... Kojiro Toyoda, com incríveis trabalhos em vidro, era um deles... Por causa do infante de vez em quando voltei-me a cruzar com eles... Passados estes meses a viver em Portugal, irá regressar... E atirando as culpas aos outros, eheheheheh... Foi por causa do esquecimento do infante que acabei por não estar lá na inauguração... Até ao próximo dia 30 poderá ser vista a sua «Exposição Final em Portugal» no Kome Escondido (Rua Bela Vista à Graça n.º 124, 1º Dto)...
A aula de Língua Japonesa hoje começou mais cedo... Tínhamos sido informados de que hoje seria um dia especial... Especial também no Japão... É celebrado o Dia da Cultura... Trata-se de um feriado nacional no Japão... O próprio imperador abre as portas do Palácio Imperial em Tokyo para condecorar personalidades... É também a data do nascimento do imperador Meiji, acarinhado pelos japoneses como um dos principais reformadores modernos do país... Parece pois lógico que hoje nos presenteassem com a cerimónia do chá (o-bon temae)... E tivemos mesmo acesso a uma pequena explicação dos pontos importantes daquele ritual... Para alguns foi a primeira vez que provaram o chá verde japonês (o-macha)... O aroma, mesmo numa mistura diluída, era inconfundível... Que belas recordações me vieram logo à memória!!!
O relacionamento do Japão com o sobrenatural é algo que se vive de um modo mais próximo do que no mundo ocidental... Para além dos habituais fantasmas, demónios, monstros e zombies é possível encontrar uma verdadeira legião de criaturas (yokai) completamente alucinadas... Desde aquelas que assombram exclusivamente as casas de banho mal lavadas, até aquelas que esmagam com o seu peso as mochilas dos caminhantes no decurso das subidas... Verdadeiras e aterradoras assombrações, não haja a mínima dúvida, eheheheheh... E todavia com um foclore tão rico não é que os japoneses abraçam a noite do Halloween como no resto do mundo? Entre o típico japonês bon-odori (festejado nas noites de Verão), a esquelética festa mexicana dos mortos, o pão-de-Deus do dia de Todos-os-Santos, e as travessuras ou diabruras do Halloween... Eu tinha que acabar por recordar este dia pela fabulosa aparição do esqueleto feito de milhares de esqueletos... Uiii, que medo!!!
Comecei a minha segunda leitura com as temperaturas a pino deste verão de São Martinho que atravessamos... Ironia esta em que o famoso verão índio se cruza com a desconhecida pequena primavera... Já vou quase a meio... As vidas dos japoneses no início do século passado... A morte, de uma forma natural ou de modo figurativo, quase omnipresente em todos estes escritos... Quem, como eu que conhece os sitios e as gentes, acaba por visualizar aquelas páginas à laia de folhetim televisivo... E, apesar da solidão daquela escrita, sorrio com a saudade recíproca de lá para cá, e de cá para lá... Porque no meio de tanta dor não há senão um remédio... E neste século houve que saber reinventar novas palavras para a saudade...
De tanto andar a pensar nas coisas elas acabam mesmo por acontecer... Comigo costuma ser assim com imensas coisas... Ando às voltas anos e anos com as ideias na cabeça e de repente, zás!!! Aprender japonês aconteceu um pouco assim... Depois de uma primeira experiência (que foi extremamente curta mas que me deu bons fundamentos), recentemente vi-me a pensar na ideia com mais afinco... E no decurso da Feira do Japão, truca!!! Um singelo folheto no meio da papelada... Uma telefonadela para acertar ideias... Uma logística rápida para me poder orientar... Pois... Durante algum tempo irei ter 2 aulas por semana de língua japonesa... E antes de começar a primeira aula tive a sorte de falar com o meu novo sensei... A breve mas intensa conversa deixou-me bastante entusiasmado com este desafio... Mas, ao fim de 1 hora já tinha sido dada matéria que só deixava de sobra 10% do que eu já conheço da língua... Uppsss... Sinto-me outra vez analfabeto, eheheheheh...
Comecei hoje a ler um dos livros de Wenceslau de Moraes daqueles que comprei na Feira do Japão. A escolha inicial sobre qual dos 2 seria o primeiro pareceu-me fácil até porque eu me tenho cruzado com Tokushima e Tokushima se tem cruzado comigo... É a primeira vez que leio Wenceslau... Não conhecia a sua escrita... Não sabia se seria rígida ou solta... Dada a época distante sempre a imaginei muito «Queirosiana»... Talvez por se tratar de um livro escrito quase na forma de diário... Talvez por me identificar volta e meia com algumas das suas observações... Estou a gostar muito e será um livro que bem depressa dará lugar ao outro... ^-^
Com o sol a pino lá começou a anunciada inauguração da reabertura do Jardim do Japão em Belém, logo seguida da festa propriamente dita... Uma voltinha pelas tendas, primeiro que tudo para almoçar (com um altalmente quente takuyaki), lanchar (com um fabuloso kasutera) e matar a sede (com miso para não cair na tentação da kirin)... Depois deu perfeitamente para ver algumas das demonstrações no palco de vestuários (yukata), de artes marciais, de arco e de sabre, de dança butoh... Mais umas voltas para visitar os espaços da Associação Wenceslau de Moraes (onde comprei 2 livros) e da N-Creatures (onde consegui comprar nada)... Um descanso na relva a desenhar e a pintar as carpas ao vento... Os encontros sucessivos com o infante no espaço da cozinha... Amigos que chegam e que vão, que chegam e que vão e que chegam e que vão... As tolices de sempre tão características dos «luso-portugueses» e a desatenção generalizada face ao cosplay... Algumas fotos de navios que não cabem no rio, uma bebida e descanso no sítio da electricidade, umas mesas por vagar no lugar saloio, umas bolas de gelado geladas que cortam os lábios e foi assim que se encerrou para mim este dia muito movimentado... ^-^
Há uns dias atrás percebi que uma viajante se propunha fazer a viagem de Tokushima de Shikoku até Espinho do Porto... Depois de tantos desencontros em marcações anteriores hoje até que correu tudo tão bem... Entre as chegadas do aeroporto e as partidas da gare houve tempo de sobra para falar do Japão, de Portugal e das coisas que gostamos e das coisas que destestamos... Mas acima de tudo também foi o momento de trocar presentes... Eu tinha preparado umas aguarelas para o pessoal lá da terra... E acabei por também eu receber umas lembranças... Mas do que eu gostei mais foi do livrinho que ensina japonês com bonecos... Tenho andado a mirá-lo de trás para a frente... E talvez por isso mesmo comece a reavaliar a hipótese de me tornar mais do que um mero otaku analfabeto...
Já me tinha chegado aos ouvidos esta notícia porque as boas notícias viajam depressa... Mas só hoje é que vi o fabuloso cartaz no facebook (ilustração de Yuichi Fukuda)... Eu estou com alguma expectativa até porque o último evento a que fui esteve bastante concorrido... Sei que vão estar lá algumas tendas... Uma em particular, a da Associação Wenceslau de Moraes, vai-me atrair a atenção... Mas a da N-Creatures concerteza que também será visitada com muito interesse e, infelizmente, sem cartões de crédito que é para não haver asneirada... Espero só que não chovam cães a potes... Mas isso dá-me ideia de que é na outra parte do mundo... Espero também que a comida não acabe tão depressa como no outro evento... :p
Já tinha sido abordado por mim o tema da ilustração de História Natural no Japão (honzu gaku)... Um destes dias vi um pequeno livro, desdobrável em concertina, do Utamaro que me fez saltar os olhos da cara, eheheheh... Uma raridade de livro pelo que muito depressa percebi pois tal era a dificuldade em obtê-lo... A ilustração de insectos (mushi, konchuu) ainda é uma maior raridade no pequeno mundo honzu gaku... E Kitagawa Utamaro (喜多川 歌麿) é bem mais conhecido pelas suas gravuras impressas por placas de madeira (ukiyo-e) de belas mulheres em poses (bijinga) mais mundanas do dia-a-dia... Sendo este livro de 15 poemas ilustrados um dos trabalhos executados antes da fama, eu fico fascinado com o potencial que já estava demonstrado... Mas realmente fascinado é ter acabado por receber este livro raro nas minhas mãos... Incredible this new age of the World!
Lololol... Começo com uma gargalhada porque às tantas de andar sempre a responder em japonês aos diálogos do dia a dia, acabei por notar que algumas pessoas até fazem um esforço no sentido de (educadamente) me responderem à letra... Delicio-me todavia quando me saudam com um caloroso konbawa à hora do almoço ou me perguntam «tem massa?» ao pequeno almoço... Lololol... E isto acontece-me todos os dias... Porém há uma história ainda mais hilariante e que se prende com o atendimento do telefone... Até o Bart Simpson sabe que o nosso 'tuga «tou xim?» em japonês resulta num musical e ritmado moshi moshi... O simplório do Bart Simpson sabe, a maneta sofisticada Sophie Fatale do Kill Bill sabe, enfim toda a gente sabe... E quem não sabe, inventa... Uma (querida) grande (menos no tamanho) amiga minha decidiu que, estando fartinha até aos ossos de me ouvir alquela algazarra ao telemóvel, era a vez dela ser educada e de me responder com um misterioso «mixu mixu»... Fez-se silêncio, consultei peritos, divulgou-se a estória e nada... Será que aquela acelerada invenção quereria dizer um palavrão feio no ancestral japonês? Fui ao dicionário e enredei-me em 4 diferentes possíveis significados... Mas um deles... Eheheheheh... Um deles sugere que a minha amiga passou a atender o telefone a dizer em voz bem alta: «Não conheço! Não conheço!» Lololololol
Noite... Museu da Fundação do Oriente... À noite é mais barato... É tão barato que não se paga absolutamente nada... Já tinha provado esta dieta na exposição «Encontros com o Oriente: Água-forte/Fukushima» e hoje repeti a dose na «Japão, O Paraíso das Mascotes»... Assim de repente não parece nada de muito importante... Ok, são bonecos, das bandas desenhadas (manga) e dos filmes de animação (anime)... Mas apesar de ser uma exposição bastante contida (no espaço essencialmente) deixa abertas as janelas de par em par para saciar o nosso desejo de voyeur... O nascimento do movimento kawaii... Numa análise por décadas ou numa amostragem geográfica... O impacto destes personagens é de tal ordem que alguns deles são figuras públicas em empresas ou em cidades, representando os valores e lemas das instituições e as comemorações das cornubações... E eu senti-me no paraíso... Talvez por andar à voltinhas duma Rei Ayanami (綾波 レイ) da minha altura???